quarta-feira, 26 de agosto de 2015

E agora, o que é que a OTAN pode fazer?


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Há um mês, o Irã começou a ter esperança no levantamento das sanções e no pleno desenvolvimento do seu programa nuclear. Hoje ele já participa no Salão Aeroespacial MAKS-2015, realizado em Zhukovsky, nos arredores de Moscou. Na véspera deste evento, o representante especial do presidente russo para o Afeganistão, diretor do Segundo Departamento da Ásia no Ministério das Relações Exteriores, Zamir Kabulov, deu uma entrevista à RIA Novosti, em que, nomeadamente, comentou a questão de como a Rússia pode ajudar o Irã a atualizar sua frota aérea. Efetivamente, como se soube hoje, o contrato dos mísseis S-300 não será assinado no MAKS 2015. Respondendo à pergunta se estão decorrendo negociações com o Irã para atualizar a frota aérea iraniana, Zamir Kabulov disse o seguinte: "Sim, claro, nós oferecemos o nosso Superjet 100.

Esta questão está sendo estudada. Não admira que a Boeing e a Airbus estejam alertas. Elas estão tentando voltar para o mercado. Vamos ver. Este é um direito soberano do governo iraniano — de escolher um fornecedor de aviões. Ao mesmo tempo, a memória histórica deles também está presente. Eles não vão esquecer como as grandes companhias aéreas atuaram em relação ao Irã e disso a Rússia não pode ser acusada". De acordo com o responsável russo, a questão dos fornecimentos do Superjet ao Irã pode ser abordada na comissão intergovernamental. No entanto, Moscou tem que se apressar porque, com o levantamento das sanções, o Irã irá escolher meticulosamente os seus parceiros comerciais.

 Para além das empresas aeronáuticas, também as empresas petrolíferas russas estão interessadas no Irã. Na entrevista, Zamir Kabulov disse que o gigante petrolífero russo Lukoil "está atuando de forma ativa", estando prevista para setembro uma visita do presidente da empresa, Vagit Alekperov, a Teerã. Hoje, esta informação foi confirmada por fontes oficiais.
Segurança na região
Zamir Kabulov abordou ainda o problema do terrorismo e dos conflitos no Oriente Médio. Eis alguns excertos da entrevista:

Pergunta: Será possível nas atuais circunstâncias, quando às ameaças "tradicionais" provenientes do Afeganistão se juntaram os problemas do combate ao Estado Islâmico na região, contar com a coordenação dos esforços entre a Organização do Tratado de Segurança Coletiva e a OTAN?

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Resposta: A questão pode ser considerada fechada, embora não por nossa iniciativa. Foi a OTAN que se recusou a cooperar com a OTSC. Acontece que esta região é parte da região eurasiática. E nós compreendemos perfeitamente que nem os americanos nem a OTAN farão o trabalho por nós. Contamos principalmente com nós próprios, quer dizer, com os nossos aliados da OTSC, da Organização de Cooperação de Xangai – são os países que em primeiro lugar vão sofrer com o aumento da ameaça terrorista <…> O Talibã, que na última década se tem posicionado como movimento nacionalista afegão, afastou-se dos velhos slogans da jihad global e concentrou-se principalmente na resolução dos problemas internos do país, tal como eles os veem.
Eles acham que a razão dos problemas internos é a presença de tropas estrangeiras, que consideram ocupantes, e o Talibã tem fortes argumentos a favor desta visão, argumentos que é difícil não tomar em conta…
Portanto, a ideologia do Estado Islâmico — a ideologia da jihad global — não é aceita por todos os talibãs. Mesmo assim, no Talibã, como em qualquer organização, há uma mudança de gerações. E, por razões perfeitamente naturais, a terceira geração mais nova é muito mais dada a ideologias radicais como as proclamadas pelo EI. E aqui, não é tanto a ideologia que desempenha um papel importante mas sim o dinheiro.
Quando os combatentes talibãs recebem duas ou três vezes menos do que o Estado Islâmico paga, o estímulo do dinheiro é muito cativante para os jovens.
Mas parte dos comandantes de nível médio do Talibã no Afeganistão não aceita as estritas regras salafistas do Estado Islâmico. Eles defendem uma visão do Islã mais própria do Afeganistão. Por isso, ainda é cedo para falar sobre uma fusão completa, mas este processo já começou. O objetivo do Estado Islâmico, penso, é eliminar o movimento Talibã da arena política e subordinar toda a sua estrutura a si próprio. É daí que vem o aumento do número de militantes do Estado Islâmico no Afeganistão.
Poderá a OTAN, juntamente com o governo afegão, lidar com isso? Tenho grandes dúvidas. Não se trata de especulações. Até recentemente, estavam no Afeganistão 100 mil americanos mais cerca de 50 mil militares de países aliados e parceiros da OTAN. Eles foram capazes de fazer alguma coisa? Foram capazes de fazer frente ao Talibã quando o Estado Islâmico ainda não existia? Eles não conseguiram derrotar o movimento guerrilheiro, várias vezes menor em número e muito menos armado. E agora, o que é que a OTAN pode fazer?
Eles não fizeram o que era mais importante: criar um exército capaz no Afeganistão, que resolvesse estes problemas. Há quem diga que os EUA nem tinham tal objetivo. Hamid Karzai, quando esteve em Moscou e se reuniu com Sergey Lavrov e Putin disse abertamente que, quando era presidente, teve uma conversa com comandantes militares norte-americanos. Nessa altura, ele perguntou por que razão eles não fizeram como a União Soviética e não criaram um exército forte, com uma poderosa força aérea e unidades blindadas. A resposta americana foi simples: não queremos repetir os "erros soviéticos."



Na verdade, eles não queriam formar um exército afegão forte, que fosse independente dos americanos. Como resultado, perderam o jogo. Mas se tudo era um jogo, eles não contaram que a sua ação se voltasse contra eles como um bumerangue. Os ataques de 11 de Setembro começaram aí, eles (os americanos) ajudaram ao surgimento da "al-Qaeda" no Afeganistão. Agora, o Estado Islâmico já nem precisa enviar os seus militantes para a América ou Europa, ele recruta-os lá mesmo. Ao contrário do Talibã, o EI tem dinheiro, proveniente do petróleo iraquiano, ele ainda cobra impostos à população e, claro, é ainda financiado por alguém. Afinal, uma organização não pode aparecer, atuar e crescer com tanto sucesso sem ter recursos financeiros.
Tudo isso junto nos suscita, a nós e aos parceiros da OTSC, bem como aos chineses e indianos, uma grande preocupação. Nas repúblicas da Ásia Central, é claro, estão sendo tomadas medidas dentro dos recursos existentes, o Tajiquistão tem fundos suficientes para fazer parar esta poderosa infiltração proveniente do Afeganistão. Mas o perigo está na retaguarda. A população islamizada e sob a influência da crise socioeconômica pode pender para o outro lado. Para isso, o Estado Islâmico precisa alcançar sucessos que estimulem os seus simpatizantes em outros países
Esse sucesso pode ser uma operação de combate rápida e bem sucedida. Isso pode inspirar os adeptos do EI na Ásia Central a levar a cabo ações militares contra as autoridades locais. Isso já está acontecendo.

P.: Então, como vê o cenário após 2016? Os norte-americanos ficarão, prevendo todas essas ameaças? E o que vamos nós fazer?

R.: Sabe, nesta situação para mim a questão de saber se os americanos ficam ou não ficam é secundária. Eles estão lá com um contingente que é várias vezes menor do que o anterior. E se 100 mil americanos falharam, o que é que estes 20 mil vão fazer? Pouco adianta que fiquem. Para mais, agora a América, o seu establishment, só está pensando em 2016, nas eleições. E eles vão fazer o possível para que, até Novembro, nada de muito drástico aconteça no Afeganistão.
Sim, eles serão forçados a permanecer se os acontecimentos começarem realmente a desenvolver-se em 2016 segundo o pior cenário. Mas eles provavelmente já aprenderam a lição. Mas não conseguem fazer nada com os métodos que têm utilizado até agora Eles não podem fazer outra coisa, ou não querem.
O tempo é curto. O único passo eficaz é fortalecer as Forças Armadas afegãs. Mas os afegãos precisam ser motivados e ter consciência de que eles estão lutando por si, por seu próprio futuro. Por enquanto, nem todos pensam assim. Temos de lhes dar todas as ferramentas, que deviam ter sido fornecidas nos últimos 12 anos, enquanto os norte-americanos estavam presentes… 

P.: Quer dizer que já se ultrapassou o ponto de não-retorno?

R.: Receio que sim. Já é tarde. Agora, para corrigir a situação, serão precisas tentativas apressadas e caóticas de comprar helicópteros. Os americanos deixaram de cooperar com a gente. Apesar de terem comprado helicópteros (MI-17), parece que não os entregam aos afegãos, utilizam-nos eles próprios. Tendo a noção que cortaram o ramo onde estavam sentados (eu estou me referindo a cooperação com a gente através do "Rosoboronexport") eles, para de alguma forma remediar a situação, agora estão fornecendo ao povo afegão 15 ou 17 helicópteros MD 530, que não são adequados para ações de combate. Os norte-americanos penduram metralhadoras nestes helicópteros, mas os primeiros experimentos terminaram em fracasso.
Deviam ter continuado a colaborar conosco. Agora eles gastam imenso dinheiro e podiam há muito ter, com esses meios, encomendado à Rússia um número suficiente de helicópteros. Nós, seja como for, treinamos os militares afegãos à nossa custa e podíamos tornar este processo regular, para mais os afegãos já estão habituados aos nossos armamentos. Os helicópteros russos são os que melhor se adaptam às regiões montanhosas.

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P.: No encontro em Ufá entre os líderes da Rússia e do Afeganistão foi de alguma forma discutida a possibilidade de entrega de helicópteros ao Afeganistão?
R.: Sim, foi discutida. Vladimir Putin disse precisamente ao seu homólogo afegão para ele discutir esta questão com os americanos. Estamos prontos a estudar a possibilidade de continuar a nossa colaboração, os americanos que tomem a iniciativa.
Quanto a estes helicópteros (MI-35) e outras armas avançadas, podemos trabalhar em conjunto com os americanos na parte financeira. Quanto a armas de fogo e outras armas ligeiras, dispomos delas, já as entregamos e estamos dispostos a considerar as opções. Mas isso terá que ser um acordo abrangente. A conversa foi sobre isto. Mas, curiosamente, o presidente afegão, embora seja um grande amigo dos Estados Unidos, disse que os americanos não vão dar dinheiro para isso. Se os americanos querem que este sistema não falhe, eles, como pessoas razoáveis, devem fazer tudo para reforçar a sua defesa. Aparentemente, houve algumas considerações ideológicas que prevaleceram sobre o bom senso.
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