domingo, 21 de dezembro de 2014

Bolsonaro e Maria do Rosário: o que os liberais pensam?


bolsonaro-rosário
O maior busílis da semana foi a resposta faiscante do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) à deputada Maria do Rosário (PT-RS).
Maria do Rosário havia chamado o deputado de “estuprador” em 2003, sem sofrer um processo por calúnia por isso (ironicamente, Bolsonaro foi assim chamado justamente por estar desejando uma pena severa para um estuprador e esquartejador, o que Rosário critica).
Bolsonaro, que ainda mais curiosamente havia recebido pedidos de cassação do seu mandato à época por isso, resolveu obtemperar com 11 anos de atraso à provocação, dizendo que Maria do Rosário não merecia passar por tal situação – ainda agudizando a situação, garantindo que ela é “feia”.

Foi o mote para novos pedidos de cassação, e um enxame de críticas e remissões na imprensa e na internet, quase que em sua totalidade baseados em dois fatores: 1) a vontade de alguém ser associado ou desassociado dos protagonistas; 2) a defesa ou crítica sistemática dos protagonistas, não importando o que aconteça – as críticas vêm sempre de pessoas que os criticariam em qualquer circunstância e vice-versa.
Todavia, antes de sacar a metralhadora de opiniões típica de polêmicas de vida semanal na internet, talvez fosse hora de pensar: o que os liberais pensam a respeito?
A resposta inicial pode ser resumida em um bocejo.
Liberais são, por definição, as pessoas que acreditam na libertação das pessoas da política. São, de certa forma, “anti-políticos”. Sua forma de pensar a política é, justamente, despolitizar tudo o que possa.
Desde a ascensão do primeiro grande totalitário em larga escala, Napoleão Bonaparte, esculpido na revolta em massa da Revolução Francesa, tentou-se politizar absolutamente tudo o que antes não era assunto político.
Napoleão ele próprio declarava que tudo deveria se tornar político e tudo que fosse fora da política deveria ser considerado menor – ou deixar de existir. Questões triviais, como o calendário ou o sistema de medidas, tornaram-se políticas, alargado o Iluminismo e sua crença na “razão” como ordenadora para além das capacidades racionais (ignorando costumes e tradições por exemplo).
Por esta razão, os povos anglo-saxões, liberais, anti-políticos e amantes da liberdade por definição, até hoje odeiam coisas como o sistema métrico e a tentativa revolucionária de trocar as horas por um sistema centesimal de minutos, além de tentar dividir o ano também por alguma macaqueação decimal, como semanas de dez dias em meses de 30 dias – dando ensejo para a segunda grande teoria totalitária do mundo nas mãos de Karl Marx, que tanto queria corrigir os erros do “18 Brumário” de Napoleão.
Liberais crêem que as pessoas devam produzir suas riquezas – sejam vegetais que nasçam em sua horta, transformando terra em alimento que antes não existia e se tornando mais ricas por isso, seja criando grandes empresas e produtos que as pessoas desejem para melhorar suas vidas – e rejeitam o método político de resolver questões que não sejam de interesse público pacífico claro.
Afinal, o método político é o uso da força para tomar riqueza de alguém, o método econômico é a criação de riqueza sem agressão a outrem. A política diminui a riqueza – por isso vive de impostos. A economia cria riqueza – por isso países de economia aberta são os campeões de riqueza até entre sua parcela mais pobre, como Suíça, Singapura, Coréia do Sul, Alemanha, Inglaterra, Austrália, Canadá e a América.
Liberais, então, não crêem muito em políticos. Mesmo para assuntos “ofensivos”, como xingamentos e palavras mal educadas, políticos são apenas um mal necessário. Servem para criar as leis, e fazem muito mal o serviço.
Enquanto os planejadores centrais, com suas teorias de “redistribuição”, “revolução”, “reformismo”, “social-democracia” ou outras “correções”, tentam tratar a política como algo positivo, os liberais são “politizados” apenas no sentido de saberem o que está acontecendo na confecção e execução de leis.
Liberais gostam de criar e trocar suas riquezas livremente, e querem leis (e a parte mais chata que acompanha as leis, que são os políticos) apenas para manter este ordenamento pacífico, evitando os “erros” que aconteçam nessa ordem.
Liberais odeiam ser roubados, seja pela iniciativa privada ou pelo setor público: liberais odeiam política, e apenas a acompanham para saber quanto de seu dinheiro e sua liberdade está sendo surrupiada por políticos – e pelo sistema político como um todo.
Liberais são contra tudo isso que está aí, embora os planejadores centrais, com seus dirigismos “sociais”, queiram mais poder concentrado em suas mãos – e juram de pés juntos que tudo isso que está aí é “liberalismo” ou “neoliberalismo”, estes monstrengos que os impedem de controlar o aparato estatal e o poder político de mando e desmando.
Em uma sociedade liberal de fato, um xingamento de Bolsonaro ou de Rosário é quase questão de foro íntimo. Caso queiramos dar mesmo valor às suas palavras por serem deputados, e terem um decoro a respeitar, tiraremos suas posições pessoais do plano político – afinal, por que toda a sociedade, que paga o salário de qualquer um deles, deve pagar pelo que um ou outro disseram, ou pelo que ofende um a outro?
Afinal, o que as palavras de Bolsonaro ou Rosário afetam a cada um de nós, senão quando estão criando leis e normas, como Rosário expulsando o povo das arcadas do Senado com nariz de nojinho na mesma semana?
Políticos, para liberais, são sagrados: sagrados como seres de quem se deve sempre desconfiar. Sagrados a ponto de quase todos os xingamentos, até os mais cabeludos, deverem ter políticos como alvos antes de nós, comuns mortais. São o nosso sacrifício – quanto menos política, mais liberdade.
O centralismo, Bolsonaro, Rosário e nós
O planejamento central, já ensinou Hayek em seu clássico absoluto O Caminho da Servidão, é a idéia de “corrigir” a sociedade através da política – de um poder político cada vez maior que possa atenuar os efeitos “negativos” da convivência.
Se há ricos e pobres, taca-se planejamento central para tornar a economia um mero mecanismo de “re”distribuição. Se há opressores e oprimidos, oprima-se os opressores com a política até se sentirem como oprimidos igualmente. Se há preconceituosos e nós, os iluminados de pensamento correto, usemos a política para uma nova sociedade em que todos serão tolerantes com opiniões divergentes, e aí nos livraremos de vez desses cretinos intolerantes que não pensam como nós.
O problema surge de um fator óbvio: é preciso muito poder para corrigir tanta coisa. Sempre que não se corrige o suficiente (seja a França revolucionária de Napoleão ou a União Soviética, mas esta desculpa é a ainda mais patente na “esquerda democrática” das sociais-democracias temporárias), pode-se sempre culpar a falta de ainda mais centralismo. Falta poder. Falta o Big Government que os americanos tanto temem em sua Constituição.
Logo se estará buscando mais centralismo, sem nem lembrar por que é mesmo que tal poder central foi previsto. E tudo isto sem grandes resultados concretos na melhoria da sociedade.
Se o Brasil não é um caso de exemplo óbvio, pode-se perguntar: o que é mesmo que seu Estado cada vez mais inchado, com a ditadura do Estado Novo, a militar, a construção de Brasília (a maior desigualdade social do país) e a Constituição “social” de 88 fizeram pelo povo, além das migalhas dos programas sociais, que rendem muito mais poder e dinheiro aos políticos que os planejam do que aos necessitados que os “compram”?
Para tal poder ser erigido sem um golpe ou revolução, urge incutir na mente das pessoas algumas preocupações que só podem ser resolvidas pela política.
Foi assim com a “desigualdade social”, tratada por Universidades, imprensa ou formadores de opinião como o maior mal do mundo, só perdendo para Hitler, Bolsonaro e Silas Malafaia.
Havia o medo do “imperialismo”, criando Brasília, as “reservas de mercado” de Fernando Collor (que atrasaram a tecnologia no Brasil em mais de uma década), o medo da “ALCA” e um discurso ufanista que jura que o Brasil será “invadido” militarmente por potências estrangeiras até hoje.
Foi assim com o “colonialismo”, o “neoliberalismo” e todos os outros mostrengos que são passados para a população como verdades e fatos tão indiscutíveis quanto água ferver a 100° C – e não como teorias e crenças compartilhadas.
Hoje os planejadores centrais no mundo inteiro, após todas estas desculpas que vão caindo por terra conforme se conhece a educação livre, sem depender de seu próprio sistema central de educação, se concentraram em um tripé de rancores, misturando problemas reais com toda a sorte de mistifórios, mentiras e desculpas por poder: o tripé racismo-machismo-homofobia.
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Com tal discurso, que mistura verdades e mentiras, problemas e frescuras, questões importantes com mera busca de poder sob slogans vazios, cada vez mais se crê na força da política para “corrigir” as pessoas antiquadas, que não terão lugar numa sociedade futura de planejamento central homogêneo.
O destino de tal empreitada, como já o sabem os mortos pelo Terror revolucionário francês, os do Gulag soviético, dos campos de concentração nazistas, do paredón do socialismo cubano e tantos outros, é sempre o mesmo: na busca por correção dos imperfeitos, gera-se uma injustiça absolutamente maior, com muito sangue daqueles que precisam ser “corrigidos” sendo derramado.
Se um deputado diz algo de que discordamos, o primeiro passo a fazer é separar o que deve ser discutido no Parlamento (uma causa política, ou seja, da polis, pública e de interesse geral) do que é de assunto que não deve ser resolvido pela política. O resto simplesmente não nos deve interessar.
Frases mal colocadas, ironias que pegam mal, tiradas infelizes são cometidas por todos – de “relaxa e goza” pouco antes de um acidente que vitimou 199 pessoas a “estupra, mas não mata” – e isto, é claro, fugindo-se de temas como o menino do MEP, Pelotas exportar “viados” ou a saudade da época em que se satisfazia os impulsos sexuais com cabritas, como afirmou desabridamente na frente de câmeras um certo ex-presidente.
Mas isto é questão não-pública. É simplesmente uma frase. Não deve ser uma notícia mais importante do que os desvios da Petrobras, o disk-propina, os empreiteiros e os lobistas de Brasília – e, claro, o próprio golpe jurídico que foi acobertado quando a atenção virou apenas Bolsonaro x Rosário, a saber, que Congresso estava votando uma lei para permitir que a presidente Dilma Rousseff descumprisse uma lei.
Antes mesmo até de verificar se as pessoas não estão criticando Bolsonaro apenas porque o criticariam até se ele afirmasse que 2 e 2 são 4, não está na hora de avaliar se tal busílis seria levado a cabo se ele tivesse trocado a frase por “Não acho que Dilma Rousseff mereça ser assaltada, mesmo tendo participado no assalto ao cofre da amante de Adhemar de Barros”, ou “Não acho que Dilma Bolada mereça perder um braço, mesmo tendo desejado isso para Aécio Neves”? Alguma delas pode ser interpretada como uma “ameaça”, mesmo tendo a mesma estrutura da frase de Bolsonaro? Como uma pode ser criminosa e outra não?
Por que uma frase gera celeuma, e todos juram que Bolsonaro ameaçou alguém de estupro (mesmo que na entrevista citada para tal Bolsonaro peça penas severas para estupradores, o que a própria Rosário é contra), mas tais frases acima não gerariam rebuliço algum?
Simplesmente porque Bolsonaro caiu em algo dentro do tripé racismo-machismo-homofobia, e mesmo que não se cometa crime algum ou se fale nada de errado, se algo pode ser alargado dentro deste tripé para aumentar o poder de planejadores centrais, far-se-á de um limão uma limonada para incriminar alguém e exigir “políticas” e “direitos” específicos.
Infelizmente, até pessoas que gostam da liberdade, e não do centralismo burocrático, com medo de serem “associadas” a Bolsonaro, compram a lorota – e até se esquecem de quão absurdamente radicalíssima é Maria do Rosário, a quem se associam e defendem sem o perceber.
O planejamento central começa pela linguagem. Infelizmente, para os odiadores da liberdade, uma ofensa, sobretudo contra uma deputada, este ser tão excelso, é comparável, quando não muito mais importante, do que um real estupro, sequestro, assassinato, tortura etc.
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