domingo, 19 de outubro de 2014

Argentina encontra corpo de vítima da violência policial




Luciano Arruga, um jovem pobre da Grande Buenos Aires (periferia da capital argentina) foi encontrado na sexta-feira, cinco anos depois de seu desaparecimento. Já não sorri como nas fotos em que era recordado desde 2009, quando estava prestes a completar 17 anos. Seu corpo foi enterrado sem identificação no principal cemitério de Buenos Aires, o La Chacarita. A autopsia indica que morreu atropelado no limite da capital com a Grande Buenos Aires, mas a família do adolescente e uma das mais reconhecidas organizações de defesa dos direitos humanos, o Centro de Estudos Legais e Sociais, apontam para a responsabilidade de policiais.

O caso de Arruga revelou à sociedade argentina os maus tratos sofridos pelos jovens pobres da Argentina por parte das forças de segurança. Vanesa Orieta, irmã da vítima, contou a história de Luciano ao EL PAÍS devido às rebeliões policiais de dezembro do ano passado: “Primeiro os policiais ofereceram a meu irmão roubar para eles. A polícia tentava seduzi-lo. Diziam para ele: ´Se roubar para a gente vamos dar tênis para você e para sua família´”. O calçado é um dos objetos mais desejados pelos adolescentes das periferias populares de Grande Buenos Aires. “Depois começaram a oferecer armas e carro, mas ele se negava. Então começou a ser detido sistematicamente. É muito comum que isso aconteça com jovens de bairros humildes. Te colocam contra a parede na rua, te ameaçam e te batem forte, na frente dos vizinhos, para que sinta vergonha. Há violência física e verbal”. No fim, o jovem desapareceu e só foi encontrado morto cinco anos depois.
A família Arruga jamais denunciou o assédio sofrido pelo adolescente. “Nós pobres não somos idiotas, não vamos denunciar sem garantias uma máfia como é a polícia. Em um momento, tratamos de resguardá-lo. Mas eles armam processos. E nós pobres não temos dinheiro para advogados. Agora não temos mais medo”, disse a irmã da vítima.
Orieta afirma que os oito policiais considerados suspeitos por ela pela suposta tortura e o desaparecimento de seu irmão foram chamados pela Justiça para depor somente na condição de testemunhas, nunca foram acusados, e o Governo daprovíncia de Buenos Aires, a cargo do kirchnerista Daniel Scioli, demorou até 2013 para afastá-los da força. Scioli é um peronista moderado, mas encabeça atualmente as pesquisas para vencer as primárias presidenciais kirchneristas de 2015. “Com o silêncio do poder político e judicial, o desaparecimento se confirmou. Há mais de 3.000 jovens mortos por ´gatilho fácil´ (fuzilamentos ilegais executados por policiais) e mais de 200 desaparecidos em 31 anos de democracia”, afirmou a irmã da vítima. Orieta disparou contra o kirchnerismo, que tem se destacado por retomar os julgamentos contra os crimes da última ditadura militar (1976-1983): “Se fala do Governo dos direitos humanos, mas a violência institucional não se resolve”.

FONTE: elpais.com
← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...