terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Brasil: da pizza de US$ 30 ao videogame mais caro do mundo


 PS4

O brasileiro está acostumado a pagar por produtos e serviços preços que, em outros cantos do mundo, os consumidores apenas justificariam como fruto de pura sandice. O exemplo mais recente disso é o que fez a Sony, que ao lançar no mundo seu novo videogame, o PlayStation 4, anunciou que o console chegará ao país como o mais caro do planeta, com valor de mercado 4,5 vezes maior do que o praticado nos Estados Unidos, onde a marca tem sua sede administrativa.


A disparidade mercadológica deu o que falar e, rapidamente, alimentou inumeras gozações nas redes sociais. Indignados, os clientes da empresa rebatizaram o produto como Playstation 4k (de 4 mil) e, desde então, muita tinta é gasta para compreender como pode ser possível um mesmo equipamento eletrônico vendido em um lugar por US$ 399 (cerca de R$ 860), aqui valer impressionantes R$ 3.999.

Bom, antes de qualquer coisa, é bom que se diga que a Sony não é a primeira e nem a última a propor no Brasil valores estratosféricos para itens desenhados para agradar o mercado de massa. Aqui, a bem da verdade, pessoa não precisa gostar de videogame para enfrentar experiência parecida. Eu mesmo, que tive no Atari meu primeiro e último console, desembolso uma média de R$ 150 mensais (cerca de US$ 68) com um plano de telefonia celular em que a internet quase nunca funciona e, não raramente, preciso rever para cima o montante pago porque sou informado de que estourei o frágil limite de ligações e de envios de mensagens de texto. Isso tudo, claro, depois de gastar R$ 2.100 (US$ 955) pelo smartphone da moda, aquisição que me deixaria satisfeito não fosse a lembrança de que novamente nos EUA o mesmo aparelho é vendido por pouco mais de US$ 600.

Recentemente, o jornal The New York Times tocou nesse assunto. E nem foi preciso recorrer à indústria de eletroeletrônicos para tanto. O mote da reportagem é o quanto se cobra por uma pizza grande de queijo no Brasil: US$ 30. A reportagem especula os porquês desse valor incrivelmente alto, justamente em um país que ainda deixa a desejar no quesito poder aquisitivo de sua população - embora em curva ascendente, um trabalhador local tem renda per capta de US$ 11.630, segundo o Banco Mundial, enquanto na Inglaterra, que se reveza com o Brasil na posição de sexta economia do mundo, esse montante é de US$ 36.700.

Um dos motivos aventados pelo veículo é a pesada carga de impostos aplicada aos produtos e serviços nacionais, coisa que todo consumidor brasileiro conhece de cor e salteado. Estima-se que, aqui, uma empresa precisa lidar com 88 impostos federais, estaduais e municipais. Uma contabilidade maluca que se explica pela escolha do governo por tributar o consumo, e não a renda das pessoas. Assim, não importa quanto dinheiro a pessoa tenha, ele paga o mesmo volume de impostos que todo o resto. Uma discrepância com economias mais equilibradas, onde se taxa a pessoa por sua renda. Milionários contribuem mais para fisco do que a classe média e assim por diante.

Mas de volta ao Playstation 4, ao ver o impacto negativo da custo do equipamento entre seus fiéis compradores brasileiros, a companhia tratou de destacar um de seus executivos para explicar a matemática que tornou o console subitamente em um produto de luxo. Segundo o executivo, o preço do videogame é US$ 399 (R$ 858). Dai você inclui 63% de taxas de importação, acrescenta R$ 875 do custo de revenda, exclui R$ 258 de margem de lucro da subsidiária local e, pronto, chega-se ao preço quase obsceno. "Por esse valor não gostaríamos de vender sequer um PS4 no Brasil”, confessou o porta-voz.

Bom, ele talvez tenha exagerado um pouco nessa última declaração (quem não quer vender, não coloca à venda). Mas, sim, o executivo toca no problema que não somente a Sony, como todas as empresas estrangeiras enfrentam no país. O Brasil é dono de uma das economias mais protecionistas do planeta. Sem nacionalizar a produção, fica praticamente impossível garantir um preço minimamente aceitável para o mercado interno.

Esse ponto da história, aliás, me faz lembrar os desafios de um publicitário do Paraná, no Sul do Brasil, que conheci outro dia. Ele gastou o que tinha para trazer uma marca estrangeira de sorvetes e enfrentou problemas com a importação dos insumos (o segundo lote de importação da massa para a produção do sorvete ficou parado na Policia Federal, o produto venceu e ele precisou fechar a loja por um mês em pleno verão). Traumatizado, decidiu seguir atrás de um fornecedor local. Procurou, procurou até que encontrou. Mas, mesmo assim, abrindo a planilha de lucros dos dois lados, não conseguiu chegar ao valor da matéria-prima original, mesmo contabilizando os encargos de importação.

Resumo da história: não é que a Sony, a fabricante de meu aparelho celular ou o empresário que vende sorvetes simplesmente enlouquecem com os preços no Brasil. É que ainda não encontramos por aqui um caminho para transformar o apetite do brasileiro pelo consumo em algo saudável, sem aquela sensação de que somos passados para trás toda as vezes que entramos em uma loja dentro do shopping center perto de casa.

Fonte : Voz da Russia
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