terça-feira, 20 de agosto de 2013

Irã-Iraque: 25 anos de paz – um bom motivo para otimismo




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Há exatamente 25 anos, em 20 de agosto de 1988, entrou em vigor o armistício entre o Irã e o Iraque. Terminou assim a guerra sangrenta de oito anos, chamada no Irã de “Defesa Sagrada” e, no Iraque, mais conhecida como “Qadisiya Saddam”. Todavia, na opinião de peritos, nenhuma das partes beligerantes saiu vencedora absoluta.
Após a vitória da revolução iraniana anti-xá, um dos ilustres teólogos de Najaf, Mohammad Baqir al-Sadr, enviou ao aiatolá Khomeini uma mensagem de felicitações. Referindo-se ao xá, salientou que, devido ao seu exemplo, “os outros tiranos viram o dia da vingança”. Neste caso, o autor da frase tinha em mente, sem sombra da dúvida, os dirigentes de Bagdá. Passado um ano, Saddam Hussein se torna presidente do Iraque. Ele terá procedido à prática de repressões de dirigentes e ativistas da oposição xiita. O Irã não podia deixar de reagir. Deste modo, uma relativa melhoria das relações iraniano-iraquianas cedeu lugar à hostilidade aberta.

Que objetivos perseguiram os dirigentes do Irã e do Iraque quando optaram pela guerra? Claro que cada um contava com a derrota completa do adversário, tendo declarado, em alto e bom som, as suas intenções e a capacidade de alcançar as metas triunfantes traçadas.
Se os seus líderes tivessem refletido melhor, teriam chegado à conclusão de que a comunidade mundial jamais aceitaria tal cenário, permitindo a derrota militar absoluta em pleno sentido da palavra. Nem as superpotências, nem os blocos militares, teriam concordado com tal desenrolar dos acontecimentos, visto que o triunfo de uma das partes teria levado ao estabelecimento do controle sobre os recursos colossais de petróleo e gás na zona do Golfo Pérsico. Este fato, por si só, teria representado ameaça real para a posição das superpotências ocidentais no mercado de agentes energéticos. Para mais, o Irã preconizava princípios programáticos e slogans antiocidentais e anticapitalistas, bem como uma atitude negativa para com o Oriente socialista, almejando um papel de superpotência e a liderança no mundo islâmico.
Em face desse e de outros fatores, pode-se tirar a seguinte conclusão: as superpotências permitiram o início da guerra Irã-Iraque sob a condição de as partes beligerantes não poderem sair vencedoras. Tal opinião foi expressa por Alexander Vavilov, professor catedrático da Universidade Estatal de Moscou:
“A guerra veio revelar a estratégia geopolítica de Washington e de seus aliados no Oriente Médio. Os EUA aceitariam qualquer desfecho no intuito de enfraquecer ambas as partes. Inicialmente, os americanos tinham apoiado o Iraque, disponibilizando-lhe fotos espaciais do teatro de ações militares e fornecendo os componentes para a produção de armas químicas. Mas, quando Bagdá se sentiu certas vantagens, veio à tona o caso Irangate sobre os fornecimentos secretos de armas ao Irã, efetuados por encargo de alguns membros da administração norte-americana.”
Tal foi o veredicto dos jogadores mais potentes da geopolítica global. Note-se que, segundo a Doutrina Carter, o Golfo Pérsico era visto como uma zona de interesses vitais dos EUA e do Ocidente. Isto significa que os EUA não permitiriam alterações do equilíbrio de forças na região. Ora, os dirigentes iranianos e iraquianos não tomaram em linha de conta este fator político importante.
O fator econômico (petróleo) também desempenhou um papel substancial. Conforme disse o perito Fuad Mursi, esta guerra se tornou resultado da política de incitação levada a cabo naquela altura pelas superpotências e por monopólios petrolíferos do Ocidente. Se a guerra árabe-israelita de 1973 contribuiu para o reforço do controle dos países “petrolíferos” sobre seus recursos, o conflito entre o Irã e o Iraque, segundo reputa Mursi, levou a um brusco enfraquecimento dos países membros da OPEP. A extração e as exportações foram significativamente reduzidas e o Ocidente acabou por fortalecer a sua influência no mercado mundial de petróleo.
As perdas humanas foram mais graves do que os danos econômicos. Segundo os dados não oficiais, a guerra Irã-Iraque ceifou a vida de 1 milhão de pessoas. Por isso, o desejo de evitar banhos de sangue no futuro não constitui a única lição tirada por Teerã e Bagdá, constata o cientista político iraniano Hassan Hanizade:
“Naturalmente, os oito anos da guerra deram muitas lições a cada uma das partes beligerantes. A primeira foi o valor da vida humana. Nos anos da guerra, o sofrimento atingiu milhares de habitantes locais. Cumpre recordar o volume dos danos econômicos: foram destruídas cidades e vilas, cuja reconstrução implicou a alocação de meios financeiros astronômicos, avaliados em bilhões de dólares. É importante que, 25 anos depois da guerra, ambas as partes compreendam ser impossível solucionar controvérsias políticas mediante o emprego da força militar. A paz é melhor do que a guerra e os esforços conjuntos em outras esferas da vida trazem mais vantagens do que os litígios.
 É bom que o atual regime iraquiano não tenha tido quaisquer contradições sérias com o Irã. Por isso, existem motivos para encarar as relações entre os dois países com otimismo. Creio existirem hoje as condições para criar, sob o patrocínio do Irã e Iraque, uma associação regional eficiente que funcione na área de segurança no Oriente Médio.”
Os primeiros passos nesse sentido estão sendo dados. As forças navais do Exército de Guardiães da Revolução Islâmica e do Iraque celebraram, este ano, um acordo de colaboração entre as Marinhas de Guerra de ambos os países. Teerã e Bagdá estão negociando ainda as vias de solução pacífica dos conflitos sírio e egípcio.

Fonte: http://portuguese.ruvr.ru/
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