terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dois crimes colocam em xeque a polícia científica brasileira



Brasil, polícia

A investigação forense nunca foi uma ciência levada a sério no Brasil. De sorte que, fosse uma série de televisão, nossa polícia científica estaria mais inclinada às trapalhadas do Agente 86 do que à eficiência pragmática dos agentes de CSI em Nova York e Miami.
Essa constatação explica em certa medida o tumulto em torno de dois incidentes trágicos que, recentemente, ganharam destaque no país. O primeiro, a morte de uma família na periferia de São Paulo (quatro adultos e um adolescente) no dia 5 de agosto último. E o segundo, que poderá colocar em xeque um crime passional cometido em 2008, o caso Isabella Nardoni, menina que morreu aos cinco anos assassinada pelo pai e pela madrasta, segundo a justiça.

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, respetivamente pai e madastra, foram condenados por homicídio qualificado em 2010. O caso foi um dos mais noticiados da história da crônica policial local. De acordo com a acusação, valendo-se, sobretudo, do laudo pericial dos forenses paulistas, a menina teria sido espancada pela madrasta, que teria tentado sufocá-la. Pensando que ela estava morta, o pai cortou com uma tesoura uma rede de proteção da janela de um quarto do apartamento do casal, na zona norte de São Paulo. Em seguida, Alexandre apanhou a menina e a atirou pela janela. A criança caiu no jardim do prédio.
Acontece que agora o resultado de um laudo feito nos Estados Unidos pelo diretor do Instituto de Engenharia Biomédica da George Washington University, James K. Hahn, pode provocar uma reviravolta nessa história. Encomendadas pelo criminalista Roberto Podval, que defende Alexandre e Anna Carolina, os exames feitos pela equipe do professor concluíram que as marcas no pescoço da menina não foram causadas pelas mãos de Anna Carolina. Nem de Alexandre. Tampouco foram mãos humanas.
Segundo Podval, as marcas de esganadura no pescoço, na verdade, podem ter sido provocadas durante a queda de Isabella, provavelmente quando ela passou por uma pequena palmeira no jardim. É uma suposição do advogado, já que o laudo é inconclusivo nesse ponto. Mas o fato é que a partir desse erro, o Podval pretende entrar com uma ação de habeas corpus para o casal. Ele considera que, depois do surgimento de uma dúvida mais do que razoável de que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá tenham cometido o crime, a espera na cadeia é algo que a Justiça deve evitar.
Menino assassino?
Curiosamente, a possível revolução no caso de Isabella Nardoni apareceu na mesma semana em que um garoto de 13 anos foi apontado pela polícia como sendo o responsável por assassinar pai, mãe, tia e avó, ir para a escola no carro roubado da família e, depois, se suicidar.
O leitor há-de convir que, por si só, a sequência dos fatos narrados acima já tem potencial de sobra para ocupar as manchetes de qualquer jornal. E assim foi, evidentemente, no dia 6 de agosto, um dia após o crime. Com um agravante: pouca gente acreditou na versão da polícia.
Mesmo que a sequência dos fatos faça todo o sentido, que o menino canhoto tenha sido encontrado caído em cima da arma e com um tiro do lado esquerdo da cabeça, que seu melhor amigo diga que o adolescente sonhava em ser matador de aluguel, chamou a atenção das pessoas o curto período de tempo em que a polícia estabeleceu o protagonismo do garoto: menos de 36 horas. Isso para uma polícia habituada a arrastar investigações por dias, semanas e meses e, mesmo assim, acumular um histórico de menos de 39% de casos solucionados.
 Para a opinião pública, o fato dos pais do adolescente serem agentes de segurança pública - o pai, inclusive, integrava um batalhão de elite da Polícia Militar –, somada à suspeita que a mãe seria testemunha em um caso que apontava colegas policiais em crimes bancários, deita por terra a hipótese dos técnicos da polícia.
E não importa dizer que a análise das pegadas do garoto indique que ele esteve no quarto das tias mortas depois de assassinar os pais, nem é levada em consideração a informação de que nem toda pistola acionada deixa vestígios nas mãos – não foram encontrados resíduos de pólvora no garoto. Enfim, pode até ser crível a perícia. O fato é que o brasileiro parece não acreditar nela.

Fonte : http://portuguese.ruvr.ru
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