domingo, 11 de agosto de 2013

Briga no Congresso atrapalha plano da Nasa de 'caçar asteroides'





Informalmente, o plano é conhecido como "laçar um asteroide". A Nasa (Agência Espacial Norte-Americana) quer lançar uma espaçonave não tripulada em 2018 para capturar um pequeno asteroide - talvez de seis a nove metros de diâmetro -, trazê-lo às proximidades da Terra e depois enviar astronautas para examiná-lo em 2021, ou posteriormente.

Porém, a Agência Espacial encontrou um problema técnico teimoso: os republicanos no Congresso.

Normalmente, existe apoio (ou desaprovação) bipartidária no Congresso aos planos arrojados da Nasa, principalmente quando envolvem voo espacial humano. Quando ocorrem brigas, elas costumam acontecer entre legisladores de Estados com maior presença da Agência, como Flórida e Texas, e aqueles com menos interesses.


Este mês, no entanto, o comitê científico da Câmara dos Deputados controlado pelos republicanos, decidiu proibir a Nasa de correr atrás dessa rocha distante. Em uma pura votação partidária – 22 republicanos a favor, 17 democratas contra –, o comitê definiu o programa da agência para os próximos três anos e excluiu a captura do asteroide, peça fundamental dos planos do governo Obama para a exploração espacial. O plano, por sua vez, incluía novas ordens de marcha, mandando a Nasa enviar astronautas para a Lua, estabelecer uma base por lá e depois ir a Marte, fazendo isso com menos dinheiro do que o pedido.

A missão do asteroide "é uma distração cara e complexa", segundo as palavras de um crítico republicano, o deputado Steven Palazzo, do Mississippi. Outros legisladores reclamaram que o projeto parecia forçado e mal articulado, sem fazer avançar os direitos de contar vantagem no espaço, como seria no caso de um regresso à Lua. O projeto de lei agora será votado pela Câmara.

A Nasa e seus cientistas espaciais estão tentando decidir o que fazer.

O presidente Barack Obama lhes pediu para encontrar uma forma de enviar humanos a um asteroide até 2025 e a Marte, na década de 2030. O plano foi apresentado em abril, descrevendo, talvez sem modéstia, uma forma de "proteger nosso planeta" de asteroides perigosos, além de dar passos largos em direção ao voo espacial tripulado.

Um estudo não ligado à Nasa estimou o custo total de capturar e redirecionar um asteroide em US$ 2,6 bilhões (cerca de R$ 5,9 bilhões). Uma nova análise do Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa, encarregado pela parte robótica da missão, coloca o custo talvez na metade disso, em US$ 1 bilhão, mais o foguete, disse Charles Elachi, diretor do laboratório.

"O plano nos possibilita pegar um asteroide quatro anos antes", disse o senador democrata Bill Nelson, da Flórida, ex-astronauta e autor do projeto.

Nelson, como outras autoridades da Nasa, assinalaram outros benefícios possíveis. A Agência aprenderia a transportar objetos pesados no espaço, o que poderia ser útil caso um asteroide grande estivesse em rota de colisão com a Terra. E a Nasa iria desenvolver tecnologias como painéis solares mais finos, úteis para uma missão humana em Marte na década de 2030.

"O quarto aspecto positivo do plano, se terminar sendo um asteroide interessante, é a possiblidade de sua exploração mineral pela ciência", acrescentou Nelson.

Revelada em abril como parte do orçamento de Obama, a proposta ainda não está morta. Nesta terça-feira, um comitê do Senado, controlado pelos democratas, deve trabalhar sua versão do projeto de lei, o qual não menciona a captura de asteroides, mas dá margem de manobra para a agência fazer o que considera melhor para chegar a Marte. No mesmo dia, especialistas vão se reunir na sede da Nasa, em Washington, para revisar o trabalho preparado sobre a missão do asteroide até agora.

Por ora, os peritos ainda não definiram um asteroide a ser sequestrado, mas a ideia é a seguinte. Primeiro, construir uma espaçonave robótica como uma nova estrutura cônica inflável que poderia envelopar o asteroide (etapa complicada, pois provavelmente ele estará girando). A seguir, ir ao encontro da rocha espacial enquanto esta oscila entre as vizinhanças da Terra e da Lua. Mais tarde, depois de basicamente envolver o asteroide em um saco (na verdade, não haverá laços envolvidos), a espaçonave o deixaria na órbita da Lua um bailado mecânico lento que pode demorar anos.

"No geral, eu a considero uma missão bastante factível", disse Brian Muirhead, engenheiro-chefe do Laboratório de Propulsão a Jato.

Feito isso, os astronautas viajariam a bordo de um novo foguete gigante que a Nasa está projetando, para conhecer o asteroide de perto. A viagem daria à agência a oportunidade de testar a espaçonave para o espaço sideral, a cápsula Orion, além dos procedimentos para ajudar os astronautas a trabalhar com asteroides, que quase não possuem gravidade.

Os asteroides andam famosos no momento, em parte por causa da medonha explosão de um deles sobre a Rússia, em fevereiro, ferindo aproximadamente 1.500 pessoas. No mês passado, a Nasa anunciou o Grande Desafio do Asteroide, convidando pessoas e organizações a colaborar no encontro de asteroides que ameaçam a Terra e a propor soluções. A Agência disse ter recebido 400 respostas ao desafio e sugestões para auxiliar na missão de captura do asteroide.



Separadamente, pelo menos duas empresas particulares anunciaram a intenção de explorar asteroides em busca de metais raros, alegando que o suprimento na Terra está terminando.

Existe quase unanimidade no Congresso e na Nasa de que o objetivo final é mandar gente a Marte, mas o desafio logístico e os custos são grandes demais para serem atingidos de imediato. De acordo com funcionários da agência espacial, o plano de captura do asteroide é um passo intermediário elegante, levando humanos mais profundamente no espaço do que antes e abrindo novos caminhos para a tecnologia de foguetes.

Porém, os republicanos do comitê de ciências da Câmara reclamaram que a proposta chegou "do nada", faltando muita explicação dos diretores da Nasa, apoio dos cientistas e análise de custos. Alguns democratas do comitê também estavam céticos, mas a maioria se disse disposta a ouvir a agência.

"Nunca fiquei muito empolgada com isso", disse a deputada democrata Donna F. Edwards, de Maryland, integrante do comitê. Todavia, ela criticou muito mais a alternativa republicana aprovada.

Para os democratas, as objeções republicanas surgiram como parte de uma estratégia maior de bloqueio sistemático a Obama.

"Eu considerei isso um insulto direto ao presidente", afirmou a deputada Eddie Bernice Johnson, do Texas, líder democrata do comitê.

Historicamente, o apoio bipartidário da Nasa no Congresso data de sua fundação, em 1958, após a União Soviética ter lançado o Sputnik. E ainda é cedo para dizer se as objeções dos deputados republicanos vão terminar jogando para escanteio o plano de capturar o asteroide. Entretanto, antigos observadores da Nasa se perguntam se as visões diferentes podem vir a se unir para dar à agência ordens de ação claras.

"Enquanto os republicanos controlarem a Câmara e Obama for presidente, não creio que existirá acordo, a confusão só vai continuar", disse John M. Logsdon, ex-diretor do Instituto de Política Espacial da Universidade George Washington.

Enquanto isso, os democratas afirmam que o atual projeto de lei da Câmara, o Ato de Autorização da Nasa de 2013, daria à agência uma missão impossível, revivendo as caras ambições de mandar astronautas de volta à Lua ao mesmo tempo em que propõe cortar o orçamento da agência para US$ 16,6 bilhões no próximo ano fiscal, contra os US$ 17,8 alocados neste ano. Para os republicanos, os planos de gastos devem levar em consideração o presente controle de gastos orçamentários. Já o projeto de lei do Senado prevê US$ 18,1 bilhões para a Nasa.

Em função do clima fiscal, a ambição lunar republicana é simplesmente impossível, segundo Louis D. Friedman, ex-diretor executivo da Planetary Society, grupo sem fins lucrativos que promove a exploração espacial.
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