segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Bomba de hidrogênio soviética comemora 60 anos



bomba, Rússia, EUA, guerra fria, armamentos, segurança nuclear

Há 60 anos, no dia 12 de agosto de 1953, no polígono de Semipalatinsk foi testada a primeira bomba de hidrogênio soviética RDS-6s.
 Eu vi pela primeira vez o documentário sobre os testes da bomba de hidrogênio no polígono de Semipalatinsk há cerca de 15 anos. Na altura, esse material estava classificado "para uso em serviço", pelo menos. Se bem que já nem me lembro totalmente, é claro.





De resto, o final dos anos quarenta e início dos anos cinquenta foi uma grande época para o programa nuclear soviético.
Os analistas norte-americanos, ao analisarem o nível de desenvolvimento da ciência e tecnologia da URSS, previam que só a criação da bomba atômica iria demorar 10 anos no país dos "sovietes" e por isso marcaram os primeiros testes para meados dos anos cinquenta. Foi precisamente a essa previsão que se deveu em muito o brusco arrefecimento das relações entre as potências vencedoras no final dos anos quarenta: o uso pelos EUA da bomba atômica na guerra contra o Japão atirava imediatamente a União Soviética para um papel secundário no mundo.
Tanto mais desagradável foi para os Estados Unidos o teste da primeira bomba atômica, em 29 de agosto de 1949.
Na corrida nuclear, os EUA estiveram muito à frente durante muito tempo. Especialmente considerando que os norte-americanos conseguiram levar da Alemanha praticamente a totalidade do programa nuclear do Terceiro Reich, além daquilo que eles próprios desenvolveram.
Ao tomarem conhecimento do primeiro teste bem-sucedido da bomba atômica na União Soviética, os americanos aceleraram o desenvolvimento de seu próprio poderio nuclear. Os EUA tinham cerca de cinco anos de avanço e eles tentaram aproveitá-lo ao máximo. A URSS, porém, precisava de ter uma capacidade de resposta adequada, senão estaria ameaçada a própria existência do país e o rumo que ele tomou depois da vitória na Segunda Guerra Mundial.
Eis que chegamos a 12 de agosto de 1953, o dia do teste da primeira bomba de hidrogênio soviética. Esta era o resultado de um desenvolvimento próprio realizado sob direção de Andrei Sakharov e Yuli Khariton (não é nenhum segredo que a primeira bomba atômica russa se baseava em trabalhos secretos obtidos por agentes soviéticos).
O polígono de Semipalatinsk foi minuciosamente preparado para os testes. Aquilo que hoje pode ser calculado e analisado com recurso a um supercomputador tinha de ser medido diretamente no local. Para as experiências, foram preparados cerca de 3 mil aparelhos de medição e de registro e vários tipos de indicadores. No campo foram construídos 190 edifícios de diversos tipos a uma distância variável do centro da explosão. Foram colocados 7 tanques, 17 canhões e morteiros. Num aeródromo improvisado foram estacionados 16 aviões. O que ocorria em todos os pontos-chave foi filmado em película cinematográfica.
A explosão teve uma potência tal que num raio de 4 quilômetros do epicentro todos os edifícios foram totalmente destruídos. Uma ponte ferroviária, com vãos de 100 toneladas, que se encontrava a um quilômetro da bomba, foi derrubada e deslocada 200 metros.
A bomba testada no polígono de Semipalatinsk em agosto de 1953 não era a primeira bomba de hidrogênio do mundo: os EUA também estavam desenvolvendo a bomba de hidrogênio e a realizar testes. Mas esta era a primeira arma de hidrogênio realizada como bomba e que não tinha de ser previamente transportada para o local de explosão "em três caminhões". Apesar das armas de hidrogênio potentes "industriais" terem sido criadas só dois anos depois, foi precisamente o teste de 1953 no polígono de Semipalatinsk que criou o frágil equilíbrio da guerra fria que se manteve até meados dos anos oitenta.
Tratado de Interdição Parcial de Testes Nucleares faz 50 anos
Os anos quarenta e cinquenta foram marcados por um entusiasmo generalizado pelos trabalhos do programa nuclear. Infelizmente, ainda não se tinham obtidos dados sobre os perigos dos experimentos com materiais físseis: muitos dos relatos de participantes (e eu ouvi bastantes porque sou de uma família de "físicos secretos") e das imagens documentais parecem-me, um finalista da cátedra de física nuclear aplicada dos anos noventa, no mínimo disparatados.
Praticamente não estava regulamentada a manipulação de materiais radioativos, as fontes de radiação podiam ser transportadas de um lado para outro numa bolsa de senhora ou no bolso interior do casaco (no bolso das calças não se podia, por haver perigo de afetar as capacidades reprodutoras do organismo).
As atuais regras de segurança da indústria nuclear custaram caro aos cientistas soviéticos.
O trabalho, na altura, era feito com grande entusiasmo. A maioria de nós terá hoje bastante dificuldade em entender como é que se pode trabalhar esquecendo tudo, passar dias seguidos no trabalho, para obter algo que nunca foi feito por ninguém. O poderio militar e econômico da União Soviética era construído com a superação de si próprio e com base no entusiasmo.
Sim, não podemos calar o fato de que os primeiros testes nucleares provocaram enormes danos ambientais e não podemos esquecer que ainda não podemos ter certezas quanto às consequências da radiação ionizante sobre o organismo humano…
Tudo isso, no entanto, são consequências do nível de desenvolvimento tecnológico e do conhecimento científico da altura e não do desrespeito pelas vidas humanas, como tentam hoje fazer crer os ecologistas mais radicais. Hoje, 60 anos depois, possuindo estatísticas, depois de se ter analisado os erros e os insucessos, é fácil falar dos efeitos nocivos dos testes nucleares. Porém, esses mesmos críticos utilizam hoje com agrado as tecnologias que não existiriam sem aqueles experimentos.
Realmente, hoje, no aniversário dos testes da primeira bomba de hidrogênio, não é o poderio militar que queremos recordar. Isso é, com certeza, uma coisa muito importante, mas está longe de ser o principal para o tempo presente: um teste como o de Semipalatinsk pode ser modelado num supercomputador moderno, não sendo num piscar de olhos, pelo menos é bastante simples.
A lição principal, para a Rússia de hoje, a retirar dos acontecimentos de há 60 anos, são nossas capacidades. Muitos tentam esquecer isso. Muitos se convenceram, e tentam convencer os demais, que sozinhos nós não somos capazes de nada. A realidade é completamente diferente.
 Sim, nem tudo é fácil e simples. Sim, 20 anos depois de uma galopante destruição da economia, até os primeiros passos na direção certa só agravam a situação, mas aqui não nada a fazer – as leis da inércia não foram abolidas. Sim, qualquer viagem ao interior da Rússia pode fornecer várias dezenas de quadros pós-apocalípticos com fábricas e fazendas meio destruídas, estradas esburacadas e maquinaria velha a enferrujar.
Só que isso já ocorreu mais de uma vez na história da Rússia. Tanto no século XIV, como no século XVI ou no século XX…
Mas de todas as vezes nós conseguimos ultrapassar isso. Portanto, havemos de ultrapassá-lo mais uma vez, tão bem como o fizemos nos finais dos anos quarenta e início dos anos cinquenta. O mais importante é não nos esquecermos disso.


Fonte :http://portuguese.ruvr.ru/
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