quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Após mortes, Egito decreta estado de emergência e toque de recolher




Corpos de membros da Irmandade Muçulmana e de outros apoiadores de Mohamed Morsi são reunidos em uma sala da mesquita  Rabaa Adawiya, onde eles estavam acampados em protesto, no Cairo (Foto: Amr Abdallah Dalsh/Reuters)

Pelo menos 149 morreram na repressão da polícia a islamitas pró-Morsi.
Vice-presidente interino ElBaradei demitiu-se por discordar do massacre.

O governo do Egito anunciou nesta quarta-feira (14) a imposição de estado de emergência por um mês no país, após os confrontos de rua entre forças de segurança e manifestantes islamitas que mataram 149 pessoas e deixaram 1.403 feridos, segundo a TV estatal.

O estado de emergência começou às 16h locais (11h de Brasília).
A presidência pediu ao exército que ajude o Ministério do Interior a "impor a ordem" no dividido país, o mais populoso dos países árabes.


Também foi imposto toque de recolher no Cairo e em 11 províncias, de 19h às 6h.
O massacre provocou repúdio internacional e levou o vice-presidente interino do Egito, Mohamed ElBaradei, a anunciar sua renúncia ao cargo pouco depois da implantação do estado de emergência.
Crise após golpe militar
Segundo a imprensa local, os confrontos seguem intensos na capital do país, cada vez mais afundado na crise política após a derrubada do presidente islamita Mohamed Morsi, no início de julho, por um golpe militar.
Os islamitas pedem que ele seja reconduzido ao cargo. Os militares descartaram, mas prometeram uma transição de volta à democracia.
Vítimas
Segundo o Ministério da Saúde, 149 pessoas morreram e outras 1.403 ficaram feridas.
O porta-voz do ministério, Hamdi Abdel Karim, disse que entre os mortos estão policiais e civis.
Em um comunicado separado, o Ministério do Interior falou que 43 policiais foram mortos.
O número de mortes deve aumentar, à medida que novos relatos de violência em vários pontos do país surgem.
A Irmandade Muçulmana e a imprensa falam em até 600 mortos.
Eles também relatam que a filha de 17 anos um de seus líderes, Mohammed al-Beltagui, está entre os mortos. Ela teria sido baleada no peito e nas costas durante o avanço da polícia na praça de Rabaa al-Adawiya
Pedido de resistência
Horas após o início do estado de emergência, milhares de islamitas que ocupavam uma praça no Cairo deixaram o local, que foi totalmente controlado pela polícia.
O ministro Mohamed Ibrahim afirmou que novos acampamentos de protesto não serão permitidos.
Apesar disso, um grupo de partidários de Morsi, Aliança Anti-Golpe, pediu que os egípcios façam protestos nacionais contra o que chamaram de "golpe militar".
A polícia do Egito prendeu duas altas autoridades da Irmandade Muçulmana, Mohamed El-Beltagi en Essam El-Erian, após o massacre. Também foi preso o clérigo islamita Safwat Hegazi.
Preocupação internacional
A situação no Egito, o mais populoso dos países árabes, preocupa a comunidade internacional.
Os EUA deploraram a violência e afirmaram que estão revendo a ajuda econômica ao Egito.
A União Europeia, por meio da chefe da diplomacia Catherine Ashton, pediu o fim do estado de emergência o mais rápido possível.
O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon condenou com veemência a intervenção das forças de segurança contra a população egípcia e criticou as autoridades no poder por terem optado pelo uso da força.

Veículo policial é empurrado para fora de uma ponte por manifestantes perto do maior acampamento de apoiadores de Mohamed Morsi no Cairo, no distrito de Nasr (Foto:  Aly Hazzaa/Sabry Khaled/El Shorouk Newspaper/AP)

"Diante das violências de hoje, o secretário-geral apela a todos os egípcios que concentrem seus esforços na promoção genuína, inclusive na reconciliação", afirmou seu porta-voz Martin Nesirky.
"Estou muito preocupado com a escalada de violência e a instabilidade no Egito", indicou o ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, em um comunicado. "Condeno o uso da força para dispersar as manifestações e peço às forças de segurança que atuem com moderação."
O chefe da diplomacia alemã, Guido Westerwelle, pediu a todas as forças políticas egípcias que impeçam uma escalada da violência.
A França também advertiu contra o uso desproporcional da força e pediu calma, enquanto Berlim defendeu "a retomada imediata das negociações" para evitar "um derramamento de sangue".
"A comunidade internacional, liderada pelo Conselho de Segurança da ONU, deve imediatamente passar à ação para cessar com este massacre", exigiu o primeiro-ministro turco islamita Recep Tayyip Erdogan.
A intervenção armada é inaceitável, declarou o chefe de Estado turdo, Abdullah Gul. "O que aconteceu no Egito, esta intervenção armada contra civis que se manifestam, não pode de maneira alguma ser aceita", afirmou Gul aos jornalistas em Ancara.
O presidente turco, que também expressou seu temor de uma situação que resulte num conflito similar ao da Síria, pediu a todas a partes a agir com calma.
O Irã condenou a matança, segundo um comunicado publicado pela agência Fars. "O Irã acompanha de perto os amargos acontecimentos no Egito condena a matança da população e adverte sobre suas graves consequências", indica o texto.
O Catar, principal apoio da Irmandade Muçulmana, denunciou com veemência a intervenção da polícia contra "manifestantes pacíficos".
Militares pressionam
A ação para acabar com os acampamentos parece frustrar as esperanças restantes de trazer a Irmandade Muçulmana, o grupo de Morsi, de volta ao palco político central, e destacou a impressão compartilhada por muitos egípcios de que os militares apertaram o controle.
A operação também sugere que o Exército perdeu a paciência com os persistentes protestos que imobilizavam partes da capital e retardavam o processo político.
Tudo começou logo após o amanhecer, com helicópteros sobrevoando os acampamentos. Tiros foram disparados enquanto os manifestantes, entre eles mulheres e crianças, fugiam de Rabaa, e a fumaça subiu sobre o local. Veículos blindados avançaram ao lado de tratores que começaram a derrubar as tendas.
O governo emitiu um comunicado dizendo que as forças de segurança mostraram o "maior grau de autocontenção", refletido em poucas baixas diante do número de pessoas "e do volume de armas e violência dirigidos contra as forças de segurança".
O governo, que prevê novas eleições em cerca de seis meses para devolver o regime democrático ao Egito, instou os manifestantes a não resistir às autoridades, acrescentando que os líderes da Irmandade Muçulmana devem parar de incitar a violência.
Sunitas se distanciam
A mesquita Al-Azhar do Cairo, principal autoridade sunita do mundo e que havia apoiado a destituição de Morsi, se distanciou da violência desta quarta.
"Al-Azhar informa aos egípcios que não tinha conhecimento dos métodos utilizados para dispersar os protestos, a não ser pelos meios de comunicação", afirmou o imã Ahmed al-Tayyeb.

Fonte : G1
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